FICAR SOZINHO: O DESAFIO DO SÉCULO?

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Síndrome da Ansiedade por Separação (SAS). O termo mais popular: ansiedade de separação. Você já ouviu falar nisso? Esse tem sido um dos assuntos mais discutidos entre especialistas, adestradores, veterinários e donos[1]  ou tutores de cães. E por quê? Afinal, o que significa ser vítima desse problema comportamental?

 

APERTANDO A TECLA

Vamos começar do começo! E quando eu digo começo, é começo mesmo! Tipo 14 mil anos atrás! Nossa, mas pra entender porque meu cachorro fica ansioso quando eu saio de casa, preciso estudar história? Calma! Não é bem isso… mas é quase! O que acontece é que lá atrás, quando os lobos se aproximaram dos humanos e, a partir dessa aproximação, surgiram os cães e todo seu processo de domesticação, nós, homo sapiens, não vivíamos em apartamentos e não trabalhávamos fora de 8 a 12 horas. Parte central da domesticação dos cães teve relação direta com o fato de seguirem os humanos para onde quer que eles fossem, porque viam neles uma fonte de recursos. Não existiam cercas, portões ou muros que impedissem o acesso dos cães a seus humanos favoritos. Eles eram livres para decidir o momento em que queriam se aproximar ou também se ausentar dos acampamentos dos caçadores-coletores. E é muito importante que façamos uma reflexão sobre isso. Eu sempre digo aos meus clientes que os cães que vivem com moradores de rua são muito mais felizes emocionalmente se comparados aos nossos pets. As pessoas se surpreendem ao pensar nisso e, de fato, acabam concluindo que é isso mesmo. Afinal, esses cães não desenvolvem transtornos de ansiedade, como ansiedade de separação, lambedura excessiva, correr atrás do próprio rabo ou perseguir sombras e luzes. Pelo simples fato de que passam o dia todo com os seus donos! E, além disso, passam o dia todo praticando comportamentos naturais, como: caçar comida (trabalhar para comer), caminhar, correr, farejar (muito), destruir coisas, ou seja, são muito mais cães que nossos pets. Claro que não vamos discutir sobre as questões de saúde que afligem esses cães e os riscos que correm, pois não é essa a questão. E que fique claro que não estou fazendo aqui nenhum tipo de apologia para que deixemos nossos cães em liberdade porque assim eles viveriam melhor, ok?O ponto central dessa reflexão é apenas uma conclusão de que os cães não foram evolutivamente programados para passarem horas fechados em um ambiente, esperando por seus tutores. Ponto.

E vejam só que curioso: do outro lado da guia[2], temos nós, humanos, vivendo em uma sociedade cada vez mais tecnológica, com aplicativos e recursos que foram criados para que nos mantenhamos 24 horas por dia conectados uns aos outros, em uma grande rede. E, no entanto, nunca se viu tantos casos de depressão e de transtornos de ansiedade. Assim como nunca se utilizou tantos ansiolíticos e antidepressivos como atualmente. O que quero dizer com isso é que nós também estamos cada vez mais sozinhos e com muita dificuldade em lidar com a solidão coletiva.

 

AH, A ANSIEDADE!

Dentro da Psicologia, o conceito de ansiedade é definido como um medo provocado pela antecipação de algo ruim. A origem da palavra está associada a agonia, sufoco, perturbação. Ou seja, ansiedade está intrinsicamente ligada ao medo. E saibam que nossa espécie não sofreu sempre desse mal. No entanto, passamos a ser ansiosos muito antes de vivermos nessa pseudo conexão a qual os dispositivos nos colocaram.

Nossa ansiedade teve início durante a revolução agrícola, há 12 mil anos atrás. Antes disso, quando éramos apenas caçadores-coletores, vivíamos de maneira mais livre, apenas ocupados com o presente, sem pré-ocupações com o futuro. A humanidade, ao se fixar e planejar uma plantação, passou a refletir largamente sobre o futuro e sobre os frutos de sua colheita, o que acabou sendo o maior gatilho histórico para a ansiedade em nossa espécie.

Nos dias atuais, o que pode acontecer com o trigo está longe de ser o topo de nossas preocupações, desenvolvemos ansiedades muito mais complexas e menos palpáveis. E os cães, que estão conosco desde antes mesmo de sermos seres ansiosos, nos acompanham em nossos medos e ansiedades complexas. Ambos sofremos dessa imensa e constante ansiedade por uma iminente solidão e, ao mesmo tempo, exigimos desse nosso maior parceiro nesta questão que ele não nos persiga quando vamos sair ou durma relaxadamente enquanto nos espera voltar pra casa.

Será que, então, o que estamos fazendo é jogar em cima dessa outra espécie, que aprendeu a nos seguir em busca de mútuo benefício, toda uma carga das nossas próprias ansiedades e medos? Será que os cães acabaram suprindo nossa necessidade de conexão e se tornaram uma das nossas únicas fontes reais de companhia? E se essas suposições fizerem sentido, como fazer para que eles lidem, sem desespero, com a ideia de que essa conexão, todos os dias, será simplesmente suspensa por um longo período?

Eu não pretendo, com esse artigo, trazer todas as soluções para esses desafios. Até porque acredito que esse é um tema bastante complexo, muito mais do que aparece na mídia por aí. E é por esse motivo que escolhi abordar esse assunto por esse viés. Se você precisa de receitas de bolo, em uma busca rápida na internet terá aproximadamente 397.000 respostas (?!). Mas, penso que se não refletirmos sobre esse medo que nos aflige como espécies (humana e canina), me parece que estaremos apenas mascarando nossos problemas.

 

LÁ EM CASA: O DESAFIO

Estar sozinho é ficar consigo mesmo, olhar para si, para suas emoções, desejos, sentimentos e medos (desta sentença, leia-se às letras miúdas: é preciso encontrar uma maneira de lidar com a vida, pois inevitavelmente isso irá gerar ansiedade). Talvez, essa seja uma das tarefas mais desafiadoras para a extensa maioria da humanidade. E não é curioso pensar que tanto nós como nossos cães estejamos enfrentando o desafio de aprendermos a ficar sozinhos, juntos?

Aprender a ficar sozinho é uma das maiores habilidades que você pode ensinar ao seu cachorro, assim que ele chega em sua casa, independentemente de como ele veio. A maioria das pessoas adota ou compra seus cães aos finais de semana. Tudo preparado na casa: pote bonito, caminha nova, banheirinho, brinquedo e, acima de tudo, muito carinho, atenção, festa, praquele ser que acabou de entrar pra família. Dois dias lindos, especiais e, de repente, na segunda-feira, tudo muda. O clima já começa diferente, ninguém dá tanta bola pro filhote, afinal, é dia de trabalho/escola. E, do nada, ele vê uma porta fechando, mas antes sua Dorothy se dirige a ele, faz um monte de carinho, deixa alguns brinquedos e fala: “Totó, a mamãe tem que trabalhar, mas mais tarde a mamãe volta pra gente ficar junto e brincar um montão, tá? Fica bem, hein? Cuida da casa, não apronta nada e faz xixi no tapetinho, viu?”. E dessas palavras todas, a única coisa que o Totó absorveu foi o tom de voz, esquisito, diferente dos dois dias anteriores, porque nem o nome dele ele aprendeu ainda. O que vai acontecer a partir do momento em que a porta se fecha vai depender muito do aparato emocional que foi construído naquele cachorro, por meio da sua genética, somada às suas primeiras experiências de vida, com sua mãe e com sua ninhada, somada aos estímulos com que ele teve contato durante seu período de socialização (entre 21 e 84 dias aproximadamente). Tem cães que, mesmo diante dessa cena aterrorizante, conseguem lidar bem e começam a explorar o ambiente, procurando comida, farejando e, se encontrarem recursos suficientes, podem ficar bem e até brincar, relaxar e dormir. Mas a grande maioria dos cães tende a seguir aquilo para o qual eles foram programados evolutivamente, ou seja, utilizar todos os seus recursos para seguir seus donos. E o resultado passa a ser algo parecido com isso.

Infelizmente, a reação de grande parte das pessoas ao se deparar com situações como essas é punir o cachorro, pois acredita que ele fez isso por vingança, pirraça ou porque ele é “danado”. Vamos falar sobre isso para que fique bem claro, sem deixar dúvidas, e também para aproveitar o recente caso do Chico. Para quem não acompanhou, o cão Chico ficou famoso quando sua tutora postou um vídeo em que ela o acusa de forma veemente por ter destruído o colchão de sua cama e um controle remoto. Enquanto isso, Chico abaixa as orelhas, abana o rabo e se curva diante dela. Cães são amorais, ou seja, não sabem o que é certo ou errado. Não sou eu quem está dizendo isso, ok? A ciência estuda exaustivamente quais são as emoções dos cães e tanto culpa como sentimento de vingança são os mais estudados pelos especialistas. E o que se conclui é que, de fato, eles não têm aparato cerebral para sentimentos e emoções complexas nesse nível.  Então, quando os cães emitem todos aqueles sinais que o Chico emite no vídeo, eles não estão sentindo culpa, certo? Preciso repetir? Eles não estão sentindo culpa. Eles estão emitindo sinais de apaziguamento, o que significa que eles percebem a postura, os gestos e a entonação dos humanos e concluem que algo está muito diferente e se sentem ameaçados, assustados. Passam a emitir todos esses sinais para que você, humano, se acalme e volte ao seu estado normal. Tem pessoas que ainda não conseguiram se convencer disso e pensam: “Pode até ser verdade, mas o Chico… ah, ele sabe que aprontou!”. Vamos repetir então: o Chico é cachorro? Sim. Então, o Chico é amoral, ok? Espero que esteja claro, pois meus dotes de desenhista não são tão afiados. Ele não dá nenhuma pelota se a almofada veio de Paris, ou pra quanto você pagou pelo colchão, ou sofá. A responsabilidade por esse boleto é somente sua! Em resumo, cães que destroem a casa quando ficam sozinhos, podem estar sofrendo de tédio, excesso de energia ou de ansiedade de separação.

Eu ainda tenho dificuldade em aceitar a ideia de que vídeos como esses viralizem na internet e divirtam as pessoas. Não entendo muito bem esse aspecto da nossa espécie. Ansiedade de separação é o segundo maior problema comportamental de cães em todo o mundo, só perdendo para agressividade. E isso é um assunto muito sério! Cães com ansiedade de separação apresentam sintomas fisiológicos que vão desde uma ofegação quando o tutor se prepara para sair, até anorexia, vômito, diarreia e automutilação. Como sintomas comportamentais, os mais comuns são a destruição de objetos, normalmente direcionados à porta ou itens de alto valor para seus donos (que guardam bastante cheiro, como controles remotos, chinelos etc), a vocalização (que vai desde um choro suave, latidos, até uivos infinitos), o caminhar de um lado para outro ou a apatia completa. Se você tem um cão que apresenta esses sintomas, minha sugestão é, nem termine de ler esse artigo e já procure por um especialista. Cães que sofrem desse transtorno, precisam de uma intervenção que inclui:

  • Manejo ambiental: rearranjo de todo o contexto em que o cão vive, incluindo o estabelecimento de uma rotina que garanta a expressão de seus comportamentos naturais e suas necessidades básicas diárias e ainda uma comunicação eficaz entre cão e tutor;
  • Modificação comportamental: exercícios e treinos para que ele possa transformar emoções negativas como medo e ansiedade relacionados à saída do tutor em emoções positivas como relaxamento e calma, além de aprender a controlar seus impulsos;
  • Auxílio farmacológico: aqui entra um médico veterinário especialista em comportamento, porque em grande parte das vezes se faz necessário dar suporte medicamentoso para que o trabalho comportamental tenha o efeito desejado.

 

BE POSITIVE

Eu sempre digo que treinamento positivo vai muito além do reforço positivo simplesmente. O treinamento positivo envolve uma nova maneira de olhar a nossa realidade e a dos cães com uma supercâmera, como se pudéssemos colocar uma lente de aumento e analisar nossas escolhas, nossos impulsos e nossas motivações. Porque, para se educar um cão baseando-se na ciência do comportamento, precisamos nos questionar sobre a nossa ética, refletir sobre nossas ações e suas consequências.

Treinar de forma positiva é ensinar ao cão aquilo que se deseja, para que ele aprenda a fazer boas escolhas em situações importantes. Cães, assim como humanos, são sociais, gregários e foram programados para fazer vínculos, viver junto. Para que ele fique bem sozinho, precisa aprender como fazer isso e precisa associar a solidão a emoções positivas.

Se seu cão já sofre e demonstra sintomas intensos com a sua saída, não trate esse problema sem auxílio profissional. Você não trataria em casa, com pesquisas no Google, um transtorno de ansiedade grave de seu filho humano, certo? Pesquise sim, muito, sobre qual profissional contratar. Pesquise sobre seus métodos, o quanto ele estuda, qual sua visão de mundo, qual sua relação com os cães, procure por clientes dele e investigue seus resultados. Não se impressione com números de seguidores ou curtidas em mídias sociais, porque tudo isso pode ser irreal. Investigue a fundo sobre esse profissional que vai entrar na sua casa e te ajudar com algo tão sério.

E o mais importante: confie na capacidade de resiliência do seu cachorro. Cães tem uma alta adaptabilidade. Eles são muito capazes de mudar seus comportamentos em função do contexto e de nossas expectativas. Basta desenvolver uma comunicação eficaz, realizar o manejo correto e eles respondem de forma surpreendente.

Confie também em sua capacidade de ensinar a ele que vocês podem aprender a ficar bem sozinhos, juntos.

 

Carolina Jardim

Psicóloga, Especialista em Comportamento Animal e Treinadora de Cães

 

[1]  O termo tutor é mais utilizado no Brasil para indicar que os cães não são nossa propriedade, mas temos apenas a tutela deles. No entanto, todos os especialistas em comportamento de outros países se referem a nós como donos, sem nenhuma conotação pejorativa. É por isso que vou me permitir usar ambos os termos aqui, donos e tutores (pelo meu carinho ao termo que criei #tutorprofissional).
[2]  Fazendo aqui uma brincadeira com o primeiro livro que li sobre comportamento, cujo nome original seria esse se os tradutores tivessem feito tradução literal,The other end of the leash, chamado no Brasil de “Cães são de marte – donos são de vênus”, da PhD em Zoologia e especialista em comunicação entre treinadores e animais domésticos Patricia B. Mc Connell. A autora também escreveu um livro sobre a ansiedade de separação, sem tradução em português: I’ll be home soon: how to prevent and treat separation anxiety (tradução literal “eu voltarei logo: como prevenir e tratar a ansiedade de separação”).